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Precursora da minissaia, testemunha ocular da bossa nova e politicamente incorreta: quem era Danuza

  • andredangelodomini
  • 23 de jun. de 2022
  • 6 min de leitura

Atualizado: 14 de jul. de 2023

Jornalista, escritora e modelo morreu nesta quarta-feira, aos 88 anos


Camila Bengo


Morreu nesta quarta-feira (22), aos 88 anos, Danuza Leão, uma das figuras mais emblemáticas e versáteis da sociedade brasileira. Foi modelo, atriz, jornalista, escritora, colunista de jornal, hostess de balada, consultora de etiqueta e até mesmo influenciadora, numa época em que a ocupação sequer existia. Além, é claro, de ter sido irmã da cantora Nara Leão, o que a fez acompanhar de perto o surgimento daquele que seria um dos movimentos musicais mais importantes da cultura no país: a bossa nova.


Mas apesar do acúmulo de títulos, Danuza não ligava para esse tipo de status, tampouco para o que pensavam dela. É o que conta à reportagem André Cauduro D'Angelo, mestre em Administração e Marketing e professor da ESPM, que entrevistou Danuza longamente, na casa dela no Rio de Janeiro, para o livro Por uma vida mais simples (Cultrix), que acabou por ser prefaciado por ela.


— Ela viveu como uma pessoa que seguia os seus instintos, as suas vontades, e não dava muita importância para o que iam pensar. São coisas que colocam um carimbo de autenticidade na figura dela — diz.


Ou seja, levou a vida que queria, sem se importar com opiniões alheias. A começar pela carreira de modelo, iniciada com menos de 18 anos, quando mudou-se para a Europa porque lhe deu na telha, à revelia do que a sociedade da época poderia pensar. Pediu um emprego ao estilista francês Jacques Fath e conseguiu.


Nos anos em que viveu em Paris, na França, em meados de 1950, aproximou-se de outros estilistas renomados e tornou-se uma das primeiras modelos brasileiras a desfilar no Exterior. Voltou para o Brasil tempo depois, ditando moda. A ponto de virar um dos maiores ícones de estilo de sua geração e uma espécie de embaixadora da minissaia no país, segundo aponta Nicele Branda, professora de Design de Moda da Faculdade Senac.


— Nesse momento de final dos anos 1950, início dos anos 1960, a minissaia começou a ser utilizada na Europa, meio que a contragosto. E ela foi a pessoa que trouxe essa liberdade de vestir para o Brasil, através do uso da minissaia. Ela foi precursora da minissaia no Rio de Janeiro, que naquele momento era o centro cultural do país — explica.


De minissaia e em terras brasileiras, Danuza casou-se com o jornalista Samuel Wainer, criador do jornal A Última Hora, com quem permaneceu por sete anos e teve três filhos — Bruno Wainer, Pinky Wainer e Samuel Wainer Filho, morto em 1984, aos 29 anos. Foi pelo casamento com Wainer, aliás, que ela passou a ter circulação fácil na política brasileira, uma vez que o esposo era próximo de Getúlio Vargas e de outros políticos da época.


Testemunha da história brasileira


A partir de Wainer também ficou próxima do meio jornalístico. Tanto que, tempos depois, ainda se casaria com outros dois jornalistas: Antônio Maria e Renato Machado. Para Marcio Pinheiro, um também jornalista que conheceu Danuza quando trabalhava como repórter do Jornal do Brasil, onde ela era colunista, esta capacidade de circular em diferentes campos sociais foi o que fez dela uma testemunha ocular da história brasileira em seus mais diversos aspectos.


— As duas coisas mais importantes dela foram ter circulado em muitas áreas e ter se relacionado com muitas pessoas. E mais, com pioneirismo. Ela foi modelo em uma época em que não se falava em ser modelo, por exemplo. Ela foi uma mulher de sociedade, mas que se envolvia com temas políticos, sociais e culturais. Ela foi amiga de todo mundo da bossa nova e do jornalismo, esteve no nascimento do Pasquim (emblemático jornal independente criado em 1969), acompanhou a política nacional... ela foi a mulher do século — define o jornalista.


Foi neste mesmo período da criação do Pasquim, na porção final dos anos 1960, que ela atuou no filme clássico do Cinema Novo Terra em Transe, de Glauber Rocha. Não era atriz de formação, mas já era uma das figuras mais pops da sociedade brasileira da época — uma verdadeira "influencer", como explica André D'Angelo, especialista em Marketing:


— A Danuza, desde que é modelo em Paris, volta para o Brasil, casa com um grande empresário e vira uma espécie de hostess nas principais boates do Rio de Janeiro, ela vive a noite, o glamour e a riqueza como talvez nenhuma outra pessoa tenha vivido durante três ou quatro décadas no Brasil. Então, ela personificou para muitas gerações essa imagem do que é ser uma pessoa que tem um trânsito muito fácil em ambientes que parecem inacessíveis.


Glauber Rocha sabia disso, estava atento ao fenômeno que era Danuza Leão. Para Marcio Pinheiro, foi pela amizade que tinha com ela, mas principalmente por Danuza ser quem era, que o cineasta chamou-a para fazer seu filme.


— Ele, que era um cara muito inteligente e muito sensível, sacou que a Danuza iria enriquecer o filme dele, e ela enriqueceu. A participação dela em Terra em Transe, interpretando uma mulher bonita, charmosa e que circula pelo poder, tinha muito a ver com ela — opina o jornalista, comparando Danuza com Silvia, personagem vivida por ela no longa.


E depois de circular por moda, música, política, jornalismo, cinema e vida noturna — afinal, em paralelo a todas essas outras coisas, ela ainda era hostess de duas das mais badaladas casas de festa do Rio de Janeiro —, Danuza percebeu que tinha muita história para contar. Foi quando começou a trabalhar como escritora (publicou livros premiados como Na Sala Com Danuza, Quase Tudo e Danuza Leão Fazendo as Malas), cronista e colunista de jornal.


Nesta época, conquistou uma leitora célebre: a escritora Martha Medeiros. Anos depois, Martha descobriria que a admiração era recíproca ao encontrar Danuza na fila de autógrafos de um de seus livros, durante o lançamento em uma livraria do Rio de Janeiro. A gaúcha ficou emocionada, afinal, há tempos era fã dos "textos charmosos, contundentes e politicamente incorretos" de Danuza Leão.


— Ela não caia nessa história de "não pode falar disso', "não pega bem falar isso". Ela se sentia completamente autorizada a falar o que pensava, e isso era cativante — analisa Martha. — A Danuza foi uma mulher de muita personalidade, e isso para mim sempre foi encantador. Mesmo que seja uma personalidade que possa ser questionável para muitas pessoas — explica.


Polêmicas


Foi justamente por ser politicamente incorreta que Danuza se envolveu em diversas polêmicas ao longo dos 88 anos vividos. Por exemplo, quando em diferentes ocasiões criticou o movimento feminista e, em uma de suas colunas, chegou a afirmar que gostava de ouvir cantadas de homens ao passar por um canteiro de obras e que "toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz".


Em outro texto, um dos seus mais polêmicos, disse: "Ir a Nova York já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?". Foi acusada de preconceito de classe e, após a repercussão negativa da colocação, explicou o que realmente quis dizer com isso e fez aquilo que poucas vezes faria durante a vida: pediu desculpas.


Para Martha Medeiros, o ponto crucial é entender Danuza Leão para compreender que, apesar de ela ter sido uma mulher à frente de seu tempo em muitos aspectos, ainda era uma mulher do seu tempo em tantos outros.


— A Danuza viveu a maior parte da vida em uma sociedade que era muito vertical, com todas as camadas bem definidas, mas hoje o que a gente está buscando é um outro tipo de sociedade, uma horizontalidade. Se olharmos para todo cronista que teve uma carreira longa, vamos encontrar alguma coisa que já não se adequa aos tempos atuais. Temos que entender que o cronista é um analista do cotidiano, e o cotidiano é mutável — opina a colunista de GZH.


Agradando ou não, Danuza Leão fez história. Para o jornalista Marcio Pinheiro, se fosse produzida uma lista com as mulheres brasileiras mais importantes do século, ela estaria lá. Porque fez o que mais ninguém fez, e chegou onde mais ninguém chegou. Tão alto que, nos últimos anos de sua vida, decidiu que queria trocar o glamour por uma rotina simples.


Vendeu o apartamento imenso e luxuoso que tinha em Ipanema e mudou-se para um de dois quartos, desapegou das roupas e sapatos de grife e montou um closet essencial, passou a receber em sua casa apenas os mais íntimos. Enfim, viveu como quis até o último instante. E, na opinião de Martha Medeiros, também ensinou a viver:


— A Danuza se reinventou durante a vida dela várias vezes. Ela mostrou que a gente pode viver várias vidas em uma só, que a gente pode ser várias.


Zero Hora, 23 de junho de 2022.





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