Petróleo inexplorado
- André D'Angelo
- 18 de mar.
- 2 min de leitura
Atualizado: 25 de mar.
D’A Busca, fica a dúvida: o que o maior empresário do RS pensa sobre o impacto da escravidão sobre as relações de trabalho?
Às vezes um livro instiga mais pelo que deixa de dizer. O comentário passageiro, a entrelinha sugestiva, o insight que não desvia do tema principal, mas fica ali, registrado, como um caminho potencial que o autor preferiu não seguir, para lamento do leitor.
É o caso de “A Busca” (Citadel, 2024,176 p.), as memórias empresariais de Jorge Gerdau Johannpeter, redigidas pelo jornalista Tulio Milman. Nele, o industrial relembra os primórdios da constituição do grupo siderúrgico que leva seu sobrenome materno, os valores que alicerçaram seu crescimento e a preocupação com temas caros ao país, como educação e produtividade.
Mas é um insuspeito lado “sociólogo” do célebre empresário que chama a atenção. Por três momentos, Johannpeter fala no legado do escravagismo para as relações de trabalho no Brasil, mas não se detém no assunto. “(...) [S]olidifiquei a convicção de que sociedades nas quais existem resíduos culturais da escravidão são limitadas em vários aspectos”, afirma, à página 66, para só retomar o tema na 121, desta vez desenvolvendo-o um pouquinho mais:
“Acredito que um empregador inserido em uma cultura em que a escravidão era um processo natural é completamente diferente de um empregador de um ambiente que sempre teve uma relação regida por contratos de trabalho. (...) Uma relação que carrega, mesmo inconscientemente, resquícios de uma mentalidade escravagista nos leva à falta de respeito estrutural (...)”.
Os empresários de sociedades de passado escravocrata seriam mais autoritários com seus funcionários? Ou, quem sabe, menos dispostos a delegar? Ou residiria nos colaboradores a tal “falta de respeito estrutural”, devido a um déficit de comprometimento, tendendo à indisciplina? Ou, ainda, capitalistas e trabalhadores, tomados por desconfiança recíproca, seriam incapazes de fundamentar um pacto de crescimento conjunto?
Não se fica sabendo. Em vez de aprofundar a matéria, reconhecida como “delicada” por “envolver processos históricos e doloridos, que deixam marcas até hoje” (p. 121), o texto prefere o caminho seguro da devoção de Johannpeter à qualidade, ao pragmatismo, à disciplina e à governança, por demais conhecida e admirada.
Ora, a Gerdau é uma das poucas multinacionais brasileiras. Tem plantas nos três países da América do Norte e nos principais da América do Sul. Massa crítica para comparações não faltaria, principalmente se temperadas pelas observações de seu líder colhidas em viagens ao Japão, meca da qualidade total. Quanto subsídio interessante não haveria para uma análise da relação entre capital e trabalho no Brasil e alhures?
“Vá no tabu. Ali está o petróleo”, dizia o teatrólogo José Celso Martinez Corrêa (1937-2023) a seus discípulos. As ideias de Jorge Gerdau sobre os impactos da herança escravocrata para os negócios no Brasil eram petróleo puro – que, por algum motivo, nem ele nem seu ghostwriter resolveram explorar.
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