top of page

Orgulho e Preconceito

  • André D'Angelo
  • 11 de mar. de 2024
  • 3 min de leitura

Escolhas de especialistas, como as do Oscar, são mais “criteriosas” que as populares?


Aqueles que subirem ao palco do Dolby Theatre de Los Angeles, neste domingo (10), para receber o Oscar, devem se sentir orgulhosos ou envaidecidos? A etimologia e os dicionários podem não me dar razão, mas os vejo como sentimentos distintos e derivados de causas diferentes. O primeiro, de alcançar realizações com base em talentos pessoais aferidos objetivamente, como aqueles postos à prova em vários esportes individuais. O segundo, do reconhecimento subjetivo de terceiros para o qual podem concorrer fatores alheios à avaliação estrito senso. É o exemplo das premiações artísticas, intelectuais e profissionais em geral.


Além da arbitrariedade intrínseca a qualquer escolha, sabe-se que lobbies, pressões políticas, imposições comerciais, amizades e desafeições formam um caldo de motivos peculiar que, servido sob a forma de um troféu, elege olimpianos, exclui malditos e perpetua certa ilusão meritocrática. Sua diluição em grandes colegiados, como o da Academia de Artes & Ciências Cinematográficas de Hollywood, que tem 9.500 potenciais eleitores, em tese atenua os vieses inerentes ao processo, mas não os elimina. Parte da tarefa dos produtores é convencer essa gente toda a assistir aos filmes para então habilitar-se a votar, numa campanha de relações públicas que custa de 500 a 1.000 dólares por sufragista.


Ser um votante zeloso não torna a tarefa mais fácil; apenas expõe o cipoal de compromissos, limitações e interesses pessoais envolvido. A começar pela quantidade de obras inscritas, indigerível pelo método tradicional. Convidada a integrar o júri do Globo de Ouro deste ano, uma jornalista brasileira disse que, em dois meses, assistiu a “mais de 50 filmes e outros tantos seriados. Num final de semana, vi seis filmes inteiros” (Fernanda Ezabella, Folha de S. Paulo, 07/01/2024). A mesma profissional revelou que sessões de exibição contavam com “comes e bebes” e permitiam a interação com elencos e diretores, de modo a “trazer um melhor entendimento do trabalho, [e] simpatia pelo esforço da empreitada”.


O contato pessoal não foi o único influenciador das escolhas. As credenciais de uma produção, como premiações anteriores, presença de nomes conhecidos e repercussão na mídia funcionaram como um filtro – ou sugestionamento? – para que ela própria escolhesse o que assistir: “[m]inha estratégia (...) foi ver longas premiados em festivais, depois obras de diretores importantes, os trabalhos mais comentados e, finalmente, me jogar no desconhecido”.


Critérios respeitáveis? Claro. Mas a curadoria prévia de outras instâncias de validação não deixa de ser um processo potencialmente cumulativo de preconceitos e idiossincrasias. A soma de parcialidades diversas é menos a objetividade do que a consagração de um imaginário e sua perpetuação.


Concursos menores compartilham algumas das tipicidades acima e adicionam outras, como a de reunir experts para decidir finalistas e vencedores. Toda opinião humana, mesmo a mais pretensamente fundamentada, é insegura e sujeita à influência dos pares e, consequentemente, a habilidades persuasivas. “[A] melhor coisa para um livro é ter um defensor ‘agressivo’, pois isso constrange quem precisa argumentar contra. O poder retórico para mudar votos é importante no processo”, afirmou Michel Laub, escritor e ex-jurado (Piauí, março de 2018).


Costuma-se repetir que existem manifestações artísticas de mais fácil assimilação, e, portanto, mais inclinadas ao aplauso popular. Por que então não reconhecer que há obras e artistas mais à feição das condecorações, igualmente? E que diante de incontáveis interveniências concorrendo para produzir vencedores e vencidos, por que não admitir que o público leigo vota à sua maneira, sob tantas condicionantes – sociais, culturais e econômicas – quanto os avaliadores das premiações consagradas, ao eleger best-sellers, blockbusters, hits e toda a sorte dos chamados “sucessos comerciais”?


Talvez os que receberem a estatueta neste domingo devessem, mesmo, se sentir gratos e afortunados, pois honrarias mimetizam a vida: méritos são sempre relativos e o acaso é força nada desprezível em qualquer apuração. E se incluir o nome no rol de vencedores funciona como metáfora da imortalidade, é seu poder terapêutico imediato o maior benefício que os contemplados podem auferir. No início da década de 1950, a carreira musical de Frank Sinatra estava em baixa. Deprimido, ele pediu e levou um papel coadjuvante em “A um passo da eternidade”, com o qual venceu o Oscar de 1954. Assistindo à cerimônia pela televisão, seu psiquiatra vaticinou: “Não o verei mais”. E não viu mesmo.


Artigo originalmente publicado no caderno DOC, de Zero Hora, em 9 de março de 2024.








Comments


© 2017 André D'Angelo - Criado pela Balz Comunicação.

  • LinkedIn - Black Circle
  • Facebook - Black Circle
bottom of page