O artista do possível
- André D'Angelo
- 15 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 18 de mar.
Presidente que nunca tomou posse, Tancredo Neves imolou-se pela democracia. Seu perfil conciliador e espírito público fazem falta hoje
Quarenta anos depois da instalação da Nova República, é inevitável não evocar a lembrança de Tancredo Neves (1910-1985). Mas qual Tancredo convém recordar?
A memória mais óbvia é a do mártir da democracia, o presidente impedido de tomar posse em função de uma sequência de decisões médicas infelizes na véspera da assunção ao poder. Mas Tancredo, até ali, já havia cumprido longa trajetória parlamentar, ministerial e executiva que o credenciavam como testemunha e protagonista de alguns dos mais importantes fatos políticos brasileiros do século 20.
Primeiro, houve o ministro fiel a Getúlio Vargas, disposto a resistir às tentativas de derrubada do governo em crise. “Na vida, há poucas oportunidades de morrer por uma boa causa”, disse ele na última reunião ministerial, ao ser alertado de que corria riscos ao desafiar a sublevação castrense.
Em seguida, houve o Tancredo conciliador que, sob a ameaça da intervenção militar em 1961, foi chamado para costurar a solução parlamentarista, única viável diante da rejeição conservadora ao nome de João Goulart e da resistência armada de Leonel Brizola.
Três anos depois, apareceu o combativo deputado que bradou “canalha, canalha!” tão logo Ranieri Mazzilli anunciou, nos microfones da Câmara dos Deputados, a vacância da presidência. E culminaria com o negociador paciencioso que se tornou a opção palatável, embora não ideal, para situação e oposição numa transição pacífica do regime militar para a democracia, entre 1984 e 1985, naquela que foi sua última obra política.
“Última” em termos. Tancredo seguiu vivo depois de morto, ao menos no imaginário. Sua agonia e morte foram eventos midiáticos de grande comoção pública. Aqueles que observassem a vigília em frente aos hospitais e as multidões que acompanhavam seu féretro deduziriam se tratar de um político popular e carismático. Não era. As circunstâncias é que o transformaram em ídolo nacional.
A mobilização frustrada pelas Diretas reacendeu a chama da participação popular, da qual Tancredo se valeria para respaldar sua candidatura ao Colégio Eleitoral. Um de seus biógrafos e ex-assessor de imprensa, José Augusto Ribeiro, reconhece que da metade de 1984 a janeiro de 1985 sua imagem mudou radicalmente, passando de um político de bastidores para um “salvador da pátria”, graças ao clima favorável que se formou nas ruas e nas redações.
Em paralelo, a maior parte dos militares aceitava a transferência do poder para os civis, mas temia que, nas mãos de um oposicionista, tivesse início um ciclo revanchista. Daí rejeitar nomes de postura mais exaltada, como Ulysses Guimarães. Tancredo, comedido, garantia que isso não ocorreria sob seu governo, o que pavimentou o caminho para atrair dissidentes do regime que se negavam a sufragar Paulo Maluf, desde sempre um nome controverso. O então governador mineiro constituiu-se, assim, numa espécie de terceira via, um oposicionista conservador ou um situacionista reformista, hábil o suficiente para amainar radicalismos e conduzir o país de volta à normalidade.
Houve, finalmente, o presidente que não foi. É por demais conhecido o seu repúdio à heterodoxia econômica, o que tornaria um Plano Cruzado improvável sob seu comando. E sua indisposição em convocar uma Assembleia Nacional Constituinte, preferindo uma comissão de notáveis voltada apenas a remodelar a Carta, removendo o chamado “entulho autoritário”, e nada mais.
O presidente que não foi certamente consumiria muito do capital político que o mártir democrático levou intocado para o mausoléu. Há quem, maldosamente, diga que a morte lhe poupou do desgaste de governar um país caótico, reservando na memória nacional um lugar mais generoso do que aquele que o exercício do cargo lhe permitiria. Será?
É possível, sim, que ele transmitisse a faixa ao sucessor com baixa aprovação, mas que o tempo lhe fizesse justiça, como sói acontecer com muitos ocupantes de funções públicas, passadas as paixões do momento. Da mesma forma que hoje se reconhece mérito em José Sarney (1985-1990) ao evitar retrocessos institucionais, é provável que coubesse a Tancredo deferência semelhante, acrescida de outra: a antecipação de alguma disciplina fiscal nas contas governamentais. Seu discurso inaugural para a equipe ministerial, jamais proferido, começava com o sugestivo “é proibido gastar”.
Para além dessas especulações, há algumas coincidências curiosas em seu percurso. A primeira, de que se preparara para assinar o termo de posse na presidência com a caneta Parker presenteada por Getúlio ao fim da reunião ministerial na qual hipotecara seu apoio ao líder gaúcho. “Uma lembrança desses dias difíceis”, disse-lhe Vargas. Mal sabia Tancredo que dias ainda mais complicados viriam trinta anos depois e o impediriam de utilizar a relíquia.
Outra singularidade está no fato de que, tal qual Getúlio, Tancredo experimentaria, na agonia e na morte, popularidade da qual em vida praticamente não desfrutara. Se Vargas passou de repudiado para amado entre 23 e 24 de agosto de 1954, Tancredo fez crescer gradualmente a simpatia em torno de seu nome ao longo de alguns meses, chegando ao ápice do reconhecimento durante o drama hospitalar. Adicione-se a contradição de que, no caso do mineiro, boa parte dessa boa vontade com a sua figura adviesse justamente da intensa cobertura que a televisão conferira a seus movimentos políticos, veículo que anos antes ele definira como portador da “escravidão mental” e da desmobilização política das massas.
Há, finalmente, uma ironia amarga. Tancredo temia que radicais renitentes do regime militar evitassem sua posse. Motivos não faltavam; o atentado frustrado do Riocentro, em 1981, e ao seu próprio comitê, em 1984, eram mostras de insatisfação na caserna com a reabertura. Por isso precavera-se fazendo uma turnê internacional logo após a vitória no Colégio Eleitoral, em janeiro, a fim de revestir de legitimidade diplomática o mandato recém-obtido. Mas foi uma intervenção médica desastrada, e não militar, que o impediu de assumir, e não sem a sua própria contribuição: workaholic, escondera dores abdominais por meses e evitara exames com medo de monitoramento da comunidade oficial de informação. Foi vítima também da missão a que se lançara, num sacrifício cujo cálculo falhou por menos de 24 horas.
Combativo, conciliador, mártir, democrata – de todos esses Tancredos, o Brasil sente muita falta.
Artigo originalmente publicado no Caderno de Sábado, do jornal Correio do Povo, em 15 de março de 2025.
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