...E o mercado no céu
- andredangelodomini
- 22 de abr. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de jul. de 2023
Cristianismo pode ter a ver com liberalismo, mas não se deve condenar quem desconfia desta combinação
O Fórum da Liberdade, que ocorreu nos últimos dias 13 e 14 em Porto Alegre, contou com uma presença curiosa entre seus painelistas: um padre. O norte-americano Robert Sirico notabilizou-se em seu país por liderar um think tank de ideias liberais e por escrever livros associando passagens bíblicas ao livre mercado. Segundo matéria da Gazeta do Povo de julho do ano passado, Sirico “encontrou na fé católica o embasamento moral para os escritos de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek”. A vinda de Sirico ao Fórum pode ter sido inusitada, mas não aleatória – nada mais representativo da defesa das liberdades econômicas do que um clérigo.
Explico. Em 1999, o teólogo Harvey Cox foi às páginas de jornais e revistas econômicos tentar decifrar o dialeto que ocupava tanto espaço no noticiário diário – e o que encontrou, nas suas palavras, foi “bastante familiar”: elegias sobre “a criação de riqueza, as tentações do estatismo, a inevitabilidade dos ciclos econômicos e, em última instância, a salvação por meio do livre mercado” (The Atlantic, 01/03/1999; tradução livre). Toda uma “nova teologia em que o pináculo celestial é ocupado por ‘O Mercado’”, ou o “Deus Mercado”, como Cox o rotula ao longo das páginas de seu artigo. Um Deus que, à semelhança do da Bíblia, é onipresente, onisciente, onipotente e infalível, e cuja existência depende da fé, visto que intangível. O que não chega a ser uma novidade, pois Jacques Derrida (1930-2004) já afirmava existir dois tipos de credo: um, no sagrado, no espiritual; outro, nos sistemas político, econômico e jurídico. Ambos religiosos.
O que talvez intrigue Sirico é por que motivos, a despeito das supostas provas das vantagens de uma economia livre, a população brasileira insiste em não compartilhar de suas convicções, elegendo reiteradamente líderes de tendência intervencionista. Seria apenas questão de fé?
“Apenas” é modo de dizer. A adesão aos sistemas de crença que movem as sociedades depende da capacidade retórica de quem os defende e do contexto sociocultural em que circulam. No primeiro caso, a impossibilidade de observar causalidade entre fenômenos de natureza social torna a persuasão dependente da mobilização de emoções – e o livre mercado é um credo que se vende como eminentemente racional, não raras vezes de eficácia “comprovável” somente por meio da matemática inacessível dos estudos acadêmicos.
Trata-se, contudo, de uma racionalidade insólita, permeada por certa dose de pensamento mágico. Ao enxergarem a vida e as relações humanas unicamente pelo prisma transacional, do qual isolam Direito, política e moral, livre-mercadistas professam que o bem comum simplesmente acontece desde que nada seja feito para frear, disciplinar ou organizar as interações econômicas. Laissez-faire, laissez-passer. Creia porque é absurdo.
No segundo aspecto, o das peculiaridades socioculturais, brasileiros são bastante céticos a respeito da capacidade de o indivíduo se impor a adversidades históricas ou momentâneas. Por aqui, o sujeito é menos potência do que vítima, menos agente do que empecilho manobrável. Sentindo-se (ou pintado como) desamparado, precisa (ou lhe fazem crer que precise) de um santo ao qual acender velas clamando proteção – Estado, órgãos reguladores, sindicatos e entidades de classe. Estes, ainda que imperfeitos, são no mínimo mais corpóreos que o “Deus Mercado”, e atendem ao desamparo de muitos e à esperteza de outros tantos.
Não sem razão ou surpresa. Numa terra em que o chamado capital cívico é pequeno – ou seja, a confiança entre os cidadãos –, é plausível o descrédito de que jogos sem juiz não sejam exatamente marcados pelo fair play e constituam, antes de tudo, um pretexto para o abuso de poder. Se os liberais desconfiam da capacidade da política, do Direito e da moral de promover o bem-estar econômico, é compreensível que o cidadão comum desconfie deles, livre-mercadistas, e de sua sinceridade de propósito – não esqueçamos que o capitalista-mor do Brasil, Jorge Paulo Lemann, pregador da lógica administrativa e da meritocracia levadas ao extremo, está metido numa fraude contábil de R$ 40 bilhões. É a divindades como ele que se deve genuflexão?
Talvez faltem ao padre Robert Sirico e àqueles que compartilham de suas ideias perceber que, neste país, o evangelho do cotidiano já deu mostras suficientes de que Deus dá e tira vidas, mas quem ensina a viver é o diabo.
Artigo originalmente publicado no caderno DOC, de Zero Hora, de 22 de abril de 2023.
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