Sobre papas e gurus
- andredangelodomini
- 24 de mai. de 2016
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Para além de seu carisma e das posições progressistas em temas delicados para a Igreja Católica, é possível que o Papa Francisco fique na história por outro legado, mais discreto e incomum: a arrumação de uma enorme e complexa casa chamada Vaticano. Segundo a imprensa, ele contratou três consultorias para examinar com lupa as finanças, bem como trouxe profissionais para ocupar posições gerenciais, em substituição a religiosos amadores. Com essas medidas, reconhece indiretamente que, embora os objetivos de uma instituição religiosa difiram dos de uma empresa, seu apropriado funcionamento depende da gestão.
Gurus da administração bateriam palmas para o Sumo Pontífice. Peter Drucker, o mais conhecido deles, afirmava que gerenciamento não é gerenciamento de negócios”, necessariamente, e sim um instrumento capaz de tornar o trabalho mais organizado e produtivo. Ainda que a mesma imprensa destaque que Francisco simpatiza com a ideia de uma Igreja capaz de transformar o sistema capitalista, e não somente integrar-se a ele para realizar boas ações, bem sabe o Papa que tal intento não será conseguido sem um mínimo de estrutura, ordem e processo, fundamentos da administração.
Os aplausos possivelmente não viessem apenas de Drucker, falecido em 2005. Henry Mintzberg, o melhor dos atuais gurus do management – justamente por, entre outras coisas, rejeitar o rótulo de guru e censurar os modismos que a atividade volta e meia patrocina –, lembraria que administrar e liderar são coisas diferentes. Sua Santidade reúne habilidades extraordinárias no segundo quesito, daquelas raras em um mesmo sujeito – empatia, crença verdadeira nos princípios que prega, boa comunicação –, mas possivelmente não detenha os melhores predicados no primeiro, o que justifica a delegação de tarefas a leigos remunerados. Como o próprio Mintzberg afirma, a liderança é conquistada, não ungida; Bento XVI era um respeitado teólogo, mas jamais produziu sobre os fiéis o arrebatamento de Francisco. Desperdiçar tamanha capacidade de aglutinação de um rebanho em crescente dispersão e desinteresse em prol de uma presença maior nos gabinetes seria um crime de lesa-instituição. A máquina burocrática precisa funcionar independentemente de quem ocupe o trono de Pedro.
A despeito de tantas aprovações virtuais, esse modesto colunista, que está longe de ser guru de qualquer coisa, arrisca um conselho ao Papa e roga-lhe um pouco mais de condescendência com o recém-empossado presidente argentino, Mauricio Macri, a quem Sua Santidade destinou meros 22 minutos de poucos sorrisos em fevereiro. Francisco, comentou-se à época, não simpatiza com as ideias liberais de Macri, alinhando-se mais ao assistencialismo de viés peronista. Foge ao conhecimento do Papa, pelo visto, que assim como a gestão impôs-se como o método mais apropriado para coordenar esforços em vista de um objetivo, o livre mercado mostrou-se, por semelhante processo de “seleção natural”, o mais adequado sistema econômico para criar riqueza e distribuí-la.
Seria promissor que o mesmo pragmatismo demonstrado pelo Sumo Pontífice na administração do Vaticano fosse aplicado ao terreno das ideologias, permitindo que a sua Argentina, enfim, deixasse para trás as trevas políticas e econômicas que ele tão bem conheceu.
Coluna Sr. Consumidor, publicada originalmente em Revista Amanhã, ed. 317.