Estagiários Engravatados
- andredangelodomini
- 12 de jul. de 2016
- 2 min de leitura

No filme Um senhor estagiário (2015), Robert De Niro interpreta um aposentado que se candidata a uma vaga de estágio numa startup. O choque de mentalidades e estilos entre um senhor de cabelos brancos e a gurizada de tênis, num mesmo ambiente, garante a diversão do espectador. O vovô old school prova que tem muito a ensinar à galera ponto com, e outro tanto o que aprender com ela.
Porém, os escritórios descolados das empresas de internet retratados no filme, que mais parecem playgrounds, soarão démodés nos próximos 30 anos, a julgar, ao menos, pelas projeções de estudiosos do mundo corporativo. Com as ferramentas de comunicação facilitando o trabalho remoto, ir a um lugar físico para desenvolver qualquer atividade pode se tornar raridade, assim como vincular-se formalmente a organizações. Isso sem falar na perspectiva da robotização. Tudo muito flexível, ou, para usar uma palavra da moda, líquido – #sóquenão. Falta o futuro combinar com a maioria de nós.
Combinar, sobretudo, com nossos cérebros moldados pela Revolução Industrial, aquela que instituiu o vínculo empregatício. Empregos padrão CLT podem soar como uma antiguidade bolorenta em tempos de aplicativos que caçam profissionais por empreitada, mas permitem uma previsibilidade. A ambiguidade e a incerteza da vida empreendedora ou do trabalho autônomo não são para todos, não ao menos para muitos daqueles nascidos sob o velho regime.
Nos EUA, pátria da flexibilidade laboral, motoristas do Uber já se organizam em sindicatos, pois não se sentem freelancers e sim funcioná- rios do app e, como tais, dispostos a negociar melhorias nas condições de labuta. E mesmo que alguém lembre que as tais identidades fluidas dos tempos que se avizinham ainda serão identidades, não foi assim que nos acostumamos: dizer-se advogado ou engenheiro é diferente de definir-se como “advogado e DJ” ou “engenheiro e escultor” – quem faz várias coisas possivelmente não consiga se dedicar a contento a nenhuma delas, sugerem nossos preconceitos. E mais diferente ainda de não ancorar qualquer uma dessas profissões em uma organização formal, dessas com CNPJ e registro em Junta, afirmando-se de bom grado como alguém permanentemente à deriva, capaz de atracar em qualquer cais. O sobrenome corporativo conta bastante no jogo de identidade que construímos no último século.
Dentro de 30 anos, quando AMANHÃ tornar-se uma sessentona, seremos como o personagem de Robert De Niro ou mais afeitos aos seus colegas de startup? Ou, quem sabe, tão “líquidos” quanto os profissionais do futuro? Talvez a resposta importe menos do que a singela lição dessa comédia de Holywood: na dúvida sobre o que vem adiante, a capacidade de adaptação e de aprendizado é a melhor ferramenta profissional com a qual podemos contar.
Artigo originalmente publicado em Revista Amanhã, ed. Julho/Agosto 2016.